Escândalo da Cambridge Analytica e o Declínio do Facebook

Um dos assuntos mais comentados nas últimas semanas foi o escândalo que aconteceu no dia 18 de março entre a empresa Cambridge Analytica e o Facebook. Uma nota sobre um suposto vazamento de dados em prol da última campanha eleitoral dos EUA deixou as pessoas em polvorosa. Será que o futuro dos americanos foi guiado por conta de manipulações psicológicas baseadas nos relatórios criados com base nos dados que os usuários compartilharam na rede social?

Criada como terra de ninguém, e vendida como um paraíso para unir pessoas e ideias, a Internet vem sendo pouco a pouco fonte de alarme e pauta de debate, no que tange à questões de privacidade dos usuários nos milhares de sites e aplicativos populares, muitos destes utilizados diariamente.

“Cometemos erros. Temos responsabilidade em proteger seus dados, e, se não conseguimos, não merecemos servir a você. Estou tentando compreender exatamente o que aconteceu e que fazer para que não ocorra de novo”, escreveu o fundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, no dia 21 de Março em sua página pessoal na rede social. O erro teria sido confiar demais na ética das empresas que de uma forma ou de outra mineram dados comportamentais e psicológicos dos usuários online.

Erro, ou fonte de rendimento? Desde muito tempo sabe-se que um dos motivos para o incentivo comercial deste empreendimento deu-se por sua capacidade de agrupar e organizar informações como nenhuma rede social antes conseguiu. Num mundo onde cada vez mais a forma de conquistar dinheiro e poder vem através do uso pragmático de informações e dados, parece que mais e mais a responsabilidade é de todos na hora de escolher como se quer existir online.

Você deve se preocupar?

Se a sabedoria popular diz que errar é humano, todos nós devemos melhorar no uso das novas tecnologias. É interessante pensar que isso não se trata apenas de saber como se proteger online, mas sim de como utilizar o conhecimento e as informações virtuais para melhor favorecer o meio a se tornar um local onde todos saímos ganhando.

Com um pouquinho de pesquisa você aprende que mesmo o mais comum dos usuários consegue levantar um mundo de dados hoje em dia. São vários os aplicativos e sites que medem sites alheios, criam relatórios de utilização de produtos e serviços, medem comportamentos de usuários, entre outros. Isso é excelente para quem pensa em virar um comunicador, um influenciador, montar um negócio digital, ou até mesmo para entender o que as pessoas pensam e querem, ou ainda para utilizar esta gama de informações no mundo desconectado.

Será que podemos culpar em exato a tecnologia? Ou será que devemos assumir nossa parcela de responsabilidade digital e fazermos escolhas melhores do que consumir, e de como consumir? Quem acha que este tipo de decisão não afeta as redes está enganado. Somente a preocupação e a comoção pública neste caso do vazamento do Facebook já foi responsável por algumas decisões de veículos e empresas grandes. Exemplos como a saída do Folha de São Paulo do Facebook devido a diminuição da visibilidade do jornalismo profissional na rede e a redução dos investimentos em mídia paga da Unilever exigindo mais transparência das plataformas, mostram que isso é somente uma peça a mais no novo modelo de um castelo de cartas que está sendo construído agora.

O que muda pra você, como usuário do Facebook? O que fazer para se proteger no futuro?

Uma máxima do empreendedorismo é que em tempos de crise quem souber jogar o jogo sairá como vencedor. O caso é que nestas questões sobre privacidade e informações, a crise é o estado da questão permanentemente. Este incidente do Facebook é, então, um ótimo momento para todos nós aprendermos como se comportar melhor online.

Dica #1 – Tenha mais atenção ao compartilhar informações na rede

Toda essa polêmica, que ainda terá repercussão nos próximos meses, serviu para deixar o usuário, de forma geral, mais atento ao que compartilha na rede. Então a dica principal e mais importante é: compartilhe seus dados de forma consciente!

  1. Saiba com quem, por quê, para quê e onde você está compartilhando suas informações.
  2. Pense e leia antes de aceitar os termos de uso de aplicativos e sites. É ali que se estão documentadas todas as informações do que você está aceitando, a partir do momento que você compartilhar seus dados.
  3. Tenha cuidado com a informação que você posta na rede. Muitas vezes não nos atentamos a este quesito, na ânsia de querer mostrar para nossos contatos onde estamos e o que estamos fazendo. Tudo isso é informação que você está compartilhando publicamente e que qualquer um poderá ter acesso. Uma configuração bem simples e que pode fazer a diferença está disponível quando você está fazendo a postagem. Logo abaixo da foto há uma campo selecionável em que você pode escolher entre compartilhar de forma pública, compartilhar somente com amigos e compartilhar com amigos específicos (imagem a seguir). Dessa forma você consegue garantir que somente o seu círculo de amigos verá a publicação, trazendo mais privacidade para a sua rede social pessoal.

    Como escolher a privacidade de uma publicação
    Passo a passo: como escolher a privacidade de uma publicação
  4. Desative as marcações automáticas. Outra dica é impedir que marcações sejam feitas em publicações sem a sua permissão. Assim cada vez que houver uma marcação por parte de um amigo, você será notificado e poderá escolher se quer ou não que a marcação seja publicada.
  5. Conheça a área de configurações do seu perfil. Por último e não menos importante, todas as configurações gerais de privacidade entre outros, você encontra acessando o seu perfil, depois no item-> Configurações. Abrirá uma nova tela com várias opções como: Linha do tempo e marcações; Ferramentas de privacidade; Segurança e Login. Revise os dados e fique atento ao que deseja ou não compartilhar.

Dica #2 – Fique de olho nas novas configurações de privacidade da plataforma

Quanto às medidas tomadas pelo Facebook que afetam como você se relaciona com a plataforma, listamos abaixo as primeiras medidas colocadas em prática pelo Facebook, visando zelar pela privacidade dos usuários. Algumas já estão disponíveis e outras serão liberadas nos próximos meses.

  1. Notificação aos usuários afetados. Desde o último dia 9 de março o Facebook começou a enviar uma notificação aos usuários que tiveram suas contas violadas pela Cambridge Analytica. A mensagem é exibida no newsfeed do usuário, informa se houve ou não a violação dos dados e o nome do aplicativo responsável pela infração.
  2. Alteração no visual das configurações para celulares. Será possível acessar todas as configurações em uma só tela de forma simplificada.
  3. Reformulação do menu “Atalhos de Privacidade”, que agora conta com mais imagens para ficar amigável para o usuário. Este menu já existia, mas o Facebook anunciou novamente e fez os ajustes visuais para que os usuários atentem a existência do recurso. Lá estão disponíveis a autenticação de dois fatores, revisão de postagens antigas, controle de exibição de anúncios e restrição de quais amigos podem ver os seus posts.
  4. Criação de uma nova área intitulada “Acesse Sua Informação”, onde você pode escolher o que excluir da sua linha do tempo ou perfil e fazer o download de toda a “sua vida no Facebook”- este recurso já existia, mas agora está mais acessível.
  5. Lançamento de uma ferramenta que ajuda a remover todos os aplicativos de terceiros vinculados ao perfil da rede social de uma vez só. A plataforma antes já permitia que você removesse os apps de terceiros, mas era preciso desconectar um app de cada vez. Agora será possível selecionar e remover todos que você desejar ao mesmo tempo. Depois de removidos, os apps perderão o acesso aos dados capturados pelo perfil do Facebook. Porém vale lembrar que os dados anteriormente coletados enquanto o app estava instalado no perfil, continuam armazenados pela desenvolvedora da ferramenta.
  6. Restrição de dados para aplicativos. Significa na prática que quando você fizer o login com o Facebook em qualquer site ou app, esse terceiro, que capta seus dados, só terá acesso a informações básicas como nome, e-mail e foto do perfil. Qualquer outra permissão terá que ser autorizada na rede social. Outra mudança significativa no item aplicativos é o desligamento automático dos apps que você não utilizou nos últimos três meses, o que evita que as empresas acumulem milhares de informações dos perfis dos usuários infinitamente.

Se você quiser se aprofundar mais no assunto e entender o que pode acontecer com as informações que você compartilha na rede, esse link oficial do Facebook contém todas as políticas de dados e privacidade da plataforma que também será atualizado nos próximos dias, segundo comunicado oficial da rede social.

O que vai mudar daqui pra frente? Quais são as consequências deste escândalo para as marcas?

No item anterior falamos das medidas que afetam os usuários, mas e o que muda para as marcas, que são os anunciantes, principal ativo do Facebook? A seguir citamos as principais mudanças que afetarão quem utiliza a rede para fins comerciais.

  1. Mudança no algoritmo orgânico da timeline, priorizando dados de amigos em vez de páginas. Esta mudança não é uma novidade, porém é mais uma ação do Facebook para tentar melhorar a experiência dos usuários na plataforma. O que muda para as marcas? Mais estratégia e criatividade para criar conteúdos relevantes para o público. Conhecer o público, seu comportamento e o que ele quer ver na rede social torna-se ainda mais primordial nos dias de hoje.
  2. Ampliação do combate ao Fake News. Uma das principais novidades anunciadas recentemente pelo Facebook no que diz respeito ao combate às notícias falsas, é a criação de uma ferramenta de checagem de informações para fotos e vídeos. Um teste já está sendo realizado desde 28 de março na França, em parceria com uma agência de notícias francesa AFP e será expandido para os demais países e parceiros em breve.
  3. Cancelamento de parcerias com terceiros. Também no dia 28 de março foi anunciado que o Facebook encerrou o Categorias de parceiros, que é um dos recursos disponibilizado através da ferramenta de anúncios da rede social, o Facebook Ads. A redução ocorrerá nos próximos seis meses. Aqui no Brasil as marcas sentirão os efeitos principalmente do encerramento da parceria com o Serasa Experian, que trazia dados extremamente relevantes para a segmentação de anúncios por faixa de renda, por exemplo.
  4. Cancelamento de milhões de contas falsas. Medida extremamente vantajosa para os anunciantes que não vão perder dinheiro anunciando para perfis falsos. Com a ativação deste recurso, só no último mês foram removidas mais de meio milhão de contas duvidosas.
  5. Acesso dos dados dos usuários por plataformas externas. Isso afeta principalmente as plataformas de automação, como as que curtem publicações ou seguem usuários automaticamente no Instagram. Com esta medida a maioria das ferramentas disponíveis no mercado serão afetadas. Mas não fique em pânico, ferramentas para agendar publicações, por exemplo, que seguem à risca as normas do Facebook continuarão suas atividades normais. O que muda mesmo são os tipos de automação permitidas, que serão drasticamente reduzidas visando proteger os dados dos usuários. É apenas o fim da automação do Instagram como você conhecia.
  6. Mudanças diversas visando às próximas eleições. Mark Zuckerberg anunciou em 9 de abril que será criada uma comissão independente de pesquisa eleitoral, composta dos principais acadêmicos do meio, que fará estudos sobre o impacto das mídias sociais nas eleições e na democracia de forma geral. Outra questão em curto prazo, é evitar a interferência direta da rede social em eleições, para tanto foram colocadas em prática duas medidas: (1) Qualquer anunciante que queria colocar anúncios políticos no Facebook terá que ser certificado. Caso o anunciante não consiga obter a certificação, será proibido de veicular anúncios. A prática também será estendida para qualquer pessoa que queira exibir anúncio relacionado a temas políticos que estejam sendo debatidos em âmbitos nacionais; (2) Verificação de páginas com muitas curtidas. Esta ação tem em vista evitar que contas falsas consigam crescer de forma viral espalhando desinformação.

No fim das contas, algo de bom sairá disso?

Uma coisa que ficou clara nos últimos tempos, é que a maior parte das pessoas ainda se comporta com muita ingenuidade no meio virtual. Num “mundo ideal” em que os avanços tecnológicos e a consciência dos usuários estivessem equiparados, esta notícia de vazamento não teria causado tanto espanto. Isso, porque os usuários estariam cientes de que este tipo de uso poderia ocorrer, e ou teriam aceitado previamente essa possibilidade, ou ainda, teriam optado por evitar expor-se ao “perigo”.

Esta reflexão fala mais sobre o avanço tecnológico do que sobre as possíveis vítimas dos acontecimentos, ainda mais se pensarmos que as vítimas podem ser todos nós. A questão é que a realidade de um mundo global já é verdadeira, e mais ainda, é marcante que tudo hoje em dia depende de informações. Quem segue pensando em relações sociais e econômicas nos moldes do século passado, provavelmente seguirá se espantando todas as vezes que casos assim acontecerem. Qual é o antídoto? A prudência de tomar as dores de crescimento como a primeira etapa num possível amanhã mais ético e inteligente.

Esta prudência é aquela mesma que é evocada quando você vê alguém discutindo a questão da pós-verdade. É a prudência que pede que não tenhamos pânico, mas paciência. Se nos foi prometido que a internet uniria as pessoas, mas que cada vez mais parece um local de medo e de separação, isso é somente parte de algo que sempre acontece com novas tecnologias.

O filósofo Marshall McLuhan, que cunhou a famosa ideia de que “o meio é a mensagem”, também falou bastante sobre o processo de adaptação dos novos meios antes de que as mensagens possam se tornar benéficas para todos. Vamos do caos, para a ordem, para o caos. A prudência que acreditamos aqui no HUB é justamente aquela que nos faz ficar otimistas com o amanhã. Que nos faz não ter medo dos problemas que tangem parte do nosso trabalho. Que nos faz querer aprender cada vez mais.

Você compartilha com a gente desta visão de mundo? Então saiba que coisas boas sairão sim desta investigação do Facebook. Se acontecer desta rede social acabar, outras melhores virão. E estas que virão terão que, desde a sua criação, apresentar uma manifestação de ética mais complexa e profunda do que a que nos foi vendida com o Facebook. Caso ele não acabe, isso será tão somente para que ele mesmo seja o berço deste novo nível de responsabilidade e de honra para com todos os usuários que o Mark endereçou, como os que deveriam ser honrados pelo contrato que a empresa oferece.

Estaremos de olho no que vem por aí. Mas e agora? O que você acha que acontecerá? O Facebook sobreviverá? Alguma outra rede social que já existe vai se tornar a nova onda mundial? Algo de novo está vindo por aí? Compartilhe sua opinião com a gente nos comentários.

Artigo escrito por Ismael Alberto Schonhorst e Sandra Grohskopf, do HUB Criação.